"Quem é você?"
"Não fará muita diferença saber quem sou. Estou apenas de passagem. Estarei aqui por poucos minutos; em seguida partirei e nunca mais me verás."
"Então, não deves ser deste Mundo."
"Não sou, de fato. Porém, certamente sabes que não há outros Mundos: este é o único. Eu, que vejo tudo de fora, posso dizer."
"Vês tudo de fora? Se é verdade, então deves saber bem como o Mundo funciona. Explica-me."
"Não sei muito do Mundo, na verdade. Vejo-o sempre de longe. Entendo um bocado da Vida e um pouco sobre a Morte, mas é só."
"Ah, é? Então me conte mais a respeito da Morte."
"Morte? Que dúvida curiosa a tua. Afinal, estás vivo. Porque desejas saber não da Vida, e sim sobre a Morte?"
"Não sei ao certo. Acho que a Vida nunca me atraiu. A Morte é mais dramática e fascinante. Além disso, a Vida acaba e a Morte é eterna. Seja como for, conte-me mais a respeito da Morte."
"Hmmm. É difícil explicar com palavras. Acho que será mais fácil entender se eu apenas mostrar. Olhe nos meus olhos."
Olhou, e viu. Viu a chuva inclemente, o céu rasgado pelos relâmpagos, a maré alta. Viu a lama cobrindo as plantações, as árvores retorcidas, os cadáveres cobertos de moscas varejeiras. Viu cães brigando por restos de comida enquanto bombas desabavam no horizonte. Viu ratos que saltavam dos prédios, fugindo do fogo rumo ao abismo. Viu relógios que giravam rápido demais, sumindo em meio ao enxofre que tudo cobria. Viu que alguns choravam, que muitos gritavam e que outros tantos gargalhavam em meio aos gritos. Viu traição, viu mentira, viu medo, viu ódio e trapaça. Viu crianças e velhos, reis que tremiam de medo, casais que se despediam. Viu uma estrela pesada caindo do céu; ao longe, quase inaudível, uma voz fazia o batismo, gritando o nome uma vez, e depois mais uma, e depois mais uma. Absinto, era o nome que gritavam. Absinto.
Quando cansou-se de ver, cerrou com força as pálpebras.
"É isso que é a Morte, então?", disse enfim, chorando de medo e revolta. "Uma coleção de tormentos? Um espetáculo sádico onde tudo é dor e desespero?"
"Não. Isso é a Vida. A Morte é o que viste quando fechaste os olhos".
Pages
quinta-feira, 12 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
Postado por
Igor Natusch
Trecho de um conto que está parado desde 2008. Uma história de submundo do rock, explicando o fim prematuro de uma banda promissora com um pouco do surrealismo alegórico que acaba sempre entrando nas coisas que escrevo. Era para ser uma história um pouco mais longa, talvez uma novela quem sabe. Ainda acho a ideia boa, mas não sei se vou completar a história um dia. De qualquer modo, estava fuçando arquivos antigos e a encontrei aqui, de forma que me deu vontade de compartilhar - mesmo porque, aqui entre nós, Antediluvian Beast é um nome bem sonoro e estranho para uma banda.
Tudo começou quando meu editor me encarregou de localizar algum ex-membro do Antediluvian Beast, de preferência o vocalista Elliot Greene. Como vocês devem saber, o guitarrista Richie Baumgarten foi encontrado morto há uns vinte dias, atirado em uma cama imunda de um motel escroto com uma seringa espetada no braço – vocês sabem, a típica morte de rock star. Pelo que disseram os legistas, a heroína era ruim, e a quantidade injetada tinha ajudado bastante também. Droga, 27 anos não é idade para morrer, não importa o que Jim Morrison ou Kurt Cobain possam dizer a respeito. Seja como for, Elliot e Richie tinham sido a dupla responsável por quase todo o material do outrora promissor conjunto, e seria jornalisticamente interessante saber de que modo o primeiro encarava a morte do segundo. Além disso, a tragédia talvez fosse a chance de esclarecer outros pontos também.
O Antediluvian Beast tinha sido o típico caso de carreira fulminante. Surgido praticamente de lugar nenhum, o quarteto lançou um disco auto-intitulado, vendeu consideravelmente bem, tocou em todos os lugares que fazem alguma diferença e passou a ser visto como um dos grupos mais relevantes e promissores de sua geração. Vocês sabem como é, aquele rock de sonoridade suja, com melodias que colam no cérebro e letras existencialistas – não tinha como não dar certo, a molecada adora essas coisas. Seja como for, a banda emplacou pelo menos dois hits de alguma repercussão e, como sempre acontece, trouxe na esteira de seu sucesso uma manada de imitadores. Todos concordam que, se tivesse conseguido lançar um segundo disco à altura do primeiro, o Antediluvian Beast teria tudo para crescer muito mais e parar sabe lá Deus onde. Mas o segundo álbum nunca veio, a banda perdeu o timing, desapareceu completamente da cena e, não fosse a morte trágica de seu guitarrista, dificilmente ouviríamos qualquer palavra sobre o grupo na mídia, seja ela especializada ou qualquer outra.
Tudo começou quando meu editor me encarregou de localizar algum ex-membro do Antediluvian Beast, de preferência o vocalista Elliot Greene. Como vocês devem saber, o guitarrista Richie Baumgarten foi encontrado morto há uns vinte dias, atirado em uma cama imunda de um motel escroto com uma seringa espetada no braço – vocês sabem, a típica morte de rock star. Pelo que disseram os legistas, a heroína era ruim, e a quantidade injetada tinha ajudado bastante também. Droga, 27 anos não é idade para morrer, não importa o que Jim Morrison ou Kurt Cobain possam dizer a respeito. Seja como for, Elliot e Richie tinham sido a dupla responsável por quase todo o material do outrora promissor conjunto, e seria jornalisticamente interessante saber de que modo o primeiro encarava a morte do segundo. Além disso, a tragédia talvez fosse a chance de esclarecer outros pontos também.
O Antediluvian Beast tinha sido o típico caso de carreira fulminante. Surgido praticamente de lugar nenhum, o quarteto lançou um disco auto-intitulado, vendeu consideravelmente bem, tocou em todos os lugares que fazem alguma diferença e passou a ser visto como um dos grupos mais relevantes e promissores de sua geração. Vocês sabem como é, aquele rock de sonoridade suja, com melodias que colam no cérebro e letras existencialistas – não tinha como não dar certo, a molecada adora essas coisas. Seja como for, a banda emplacou pelo menos dois hits de alguma repercussão e, como sempre acontece, trouxe na esteira de seu sucesso uma manada de imitadores. Todos concordam que, se tivesse conseguido lançar um segundo disco à altura do primeiro, o Antediluvian Beast teria tudo para crescer muito mais e parar sabe lá Deus onde. Mas o segundo álbum nunca veio, a banda perdeu o timing, desapareceu completamente da cena e, não fosse a morte trágica de seu guitarrista, dificilmente ouviríamos qualquer palavra sobre o grupo na mídia, seja ela especializada ou qualquer outra.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Sobre a urgência (vrs 2)
Postado por
Igor Natusch
Deixa eu explicar urgência para você. Está vendo aquela pessoa ali, que acabou de olhar no seu rosto enquanto passava a esquina? Pois ela não existe mais. Acabou, ficou para tras, sumiu no mundo que já foi e nunca mais será de novo. Aquela pessoa que você viu pela janela do ônibus? Morreu. Talvez não morta na morte, mas certamente morta na vida, sumida na multidão de coisas que não foram feitas, ditas, sentidas e que agora foram tragadas pelo tarde demais. Talvez voltem, você diz. Não voltarão, digo eu em resposta. Voltar é acaso, é exceção, é coisa que mais deixa de acontecer do que acontece, o tempo todo, a vida toda. Nada volta. Não foi, não vai ser - será um aborto de ideia, um rascunho inútil, uma lembrança aleijada do que não existe para ser lembrado. Queria voltar no tempo, você me dirá. Delírio, respondo. Não vai voltar. Nem o que foi bom, nem o que foi ruim, nem o que está sendo nesse exato momento e você aí, deixando ser sem fazer nada a respeito. Nada volta. O abraço não volta, o beijo não volta, o grito, a dor, o medo, a dúvida, a certeza. Nada. Nunca. E é isso, meu caro, que é a urgência: a sensação permanente de estar correndo atrás do que acabou de deixar de existir. Na esperança de em algum momento, pelo puro acaso, agarrar no ar a mágica, o milagre que nega o mundo e consegue permanecer.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Uma resolução de ano novo em Abril
Postado por
Igor Natusch
Decidi, de forma definitiva, que vou cuidar da minha saúde. Tenho sido desagradavelmente relapso comigo mesmo: estou gordo, sedentário, não uso protetor solar todos os dias como deveria, não tomo medicação para os males que sei que tenho e nada faço para diagnosticar os que imagino que possa ter. Tenho bebido com frequência, me alimentado mal, dormido pouco, trabalhado demais. Meu corpo é testemunho de meu desleixo, e nada tenho a reclamar do destino ou do azar, já que quase tudo é culpa minha.
Dito isso, decidi que cuidarei de mim mesmo. Já vinha ensaiando isso desde o começo do ano ao menos - tentando comer um pouco melhor, me estressar menos com as coisas, acordar mais cedo e deitar mais cedo. Tudo isso, porém, de forma um tanto incipiente, movida mais pela boa intenção do que por uma verdadeira convicção. E o que mudará isso, o que me fará buscar de forma concreta um rumo para minha saúde e minha vida, não é o esforço carinhoso de alguns amigos e amigas, não é a pressão justa e amável dos familiares, muito menos resultado de algum tipo de epifania ou revelação individual. O que me tira do pode ser e (espero eu) me coloca em definitivo no rumo dos hábitos melhores é a súbita lembrança da conversa que tive com um taxista no verão do ano passado - e, é claro, das sensações que aquele encontro proporcionou, revividas a partir desse inesperado relembrar.
Era um taxista corpulento - daquele tipo de pessoa que sobra, que mais ocupa espaço do que se possa dizer que seja gorda propriamente. Sobrava para os lados do banco de motorista do mesmo modo que sua barriga sobrava para os lados da bermuda jeans. Dirigia o tempo todo apenas com o braço direito - o esquerdo estava parcialmente para fora do carro, exposto de forma descuidada ao sol de fevereiro. Como todos os bons taxistas, estava bem disposto para um dedo de prosa - e, dotado do também natural sexto sentido dos motoristas que gostam de conversar, percebeu que eu sou do tipo de passageiro que não costuma desgostar de uma boa conversa.
Fomos papeando, portanto, enquanto o taxista me conduzia a meu local de trabalho. De início, parecia que seu repertório era restrito a observações pouco sofisticadas e um tanto explícitas sobre sua vida sexual. Repetiu muitas vezes que, em sua opinião, pouco restava a um homem diante de uma mulher disposta ao sexo do que satisfazer-lhe o desejo - e pareceu-me que ele de fato exercia essa sua certeza no dia a dia, já que conseguiu me listar uma série de aventuras sexuais durante o relativamente curto tempo de viagem, todas elas pontuadas por sinceras e sonoras gargalhadas. Fui ouvindo sem interferir muito, apenas lançando uma que outra frase para não deixá-lo falando sozinho, achando graça daquela conversa um tanto fora de propósito.
Contou-me que havia sido casado, mas nunca muito fiel - e que, mesmo separado, atendia eventualmente os reclamos de sua ex-esposa, ao mesmo tempo que mantinha uma quantidade considerável de amantes, sua ex-cunhada entre elas. Amantes que, como ele me confidenciou, custavam-lhe quantidade considerável de dinheiro, o que o fazia trabalhar dobrado para conseguir manter sua intensa vida sexual sem deixar que nada faltasse a sua única filha, que ingressaria naquele ano no segundo grau. "Às vezes, falta dinheiro até para mim", disse ele. E foi quando o tom de sua conversa subitamente mudou, assim mesmo como o céu que muda de cor às escondidas, aproveitando uma distração nossa para passar do azul para o cinza agourento de chuva.
Ergueu o braço esquerdo, o que nunca tocava o volante e que eu mal tinha visto até o momento. Seu antebraço estava parcialmente coberto por queimaduras de sol. A pele, toda avermelhada, descascava visivelmente em vários pontos, com camadas de tecido morto dando um aspecto bem desagradável à cena. Não era uma queimadura comum, de quem jogou futebol ou saiu para a praia sem protetor solar; mais parecia uma ferida profunda, de quem seguidamente submetia a região aos rigores do calor e do sol. "Tá vendo isso aqui?", perguntou, como se fosse possível não enxergar aquela feia mistura de pele ferida e cicatrizes. "Estou com medo de estar com câncer", acrescentou, juntando palavras a uma suspeita bastante razoável naquelas circunstâncias.
Explicou então que já havia ido a um médico algumas vezes e sido advertido do risco de que aquela queimadura recorrente, fruto de anos andando com o braço descoberto para fora do carro, evoluísse para algo pior. Haviam receitado pomadas - que ele havia deixado de passar, uma vez que não tinha dinheiro suficiente para comprá-las. "Não posso deixar minha filha passar necessidade", argumentou. Às vezes fazia bandagens, colocando gaze sobre a parte ferida - em outras, como naquele dia, esquecia ou apenas tinha preguiça de fazê-lo. Naquele momento, era pressionado pela filha e pela ex-esposa para fazer novos exames, o que hesitava em fazer. "Vai que o doutor me manda parar de trabalhar", ponderava, a voz tomada por uma genuína preocupação. "De onde vai sair o dinheiro? Não tenho nada nessa vida, só sei dirigir".
Senti-me meio que obrigado a dizer algo. Medindo com cuidado as palavras, ponderei que talvez fosse melhor mesmo ir ao médico, que se ele iniciasse logo o tratamento eventuais danos poderiam ser reversíveis. Me ouviu, silenciou por instantes e respondeu insistindo que não podia se dar ao luxo de ficar sem trabalhar. "Quando a coisa melhorar, quando eu estiver com mais dinheiro, eu cuido disso", disse ele, com o tom inconfundível de quem tenta dar um peso extra às palavras - tentando acreditar, creio eu, que com elas seja capaz de convencer a si mesmo.
E agora pergunto: como poderia eu condená-lo? Não é exatamente assim que me comporto todos os dias, em todas as ocasiões onde minha saúde é assunto, para outros ou para mim mesmo? Não vivo eu a convencer a mim mesmo que mais tarde tomarei conta dessa questão, que serei mais responsável comigo mesmo assim que a vida me permitir uma pausa para respirar - mesmo sabendo, e disso sei muito bem, que a vida jamais fez e jamais fará pausas para quem quer que seja? Não fico eu adiando consultas, às vezes por obra do acaso, às vezes pela própria inércia, como alguém que deseja não correr risco de surpresas desagradáveis? Não sou eu mesmo que fico levando a vida como se tudo estivesse sob controle, sufocando em algum canto escuro da mente a ideia de que estou descuidando demais, ignorando demais, protelando demais?
Muitas das histórias que a vida me manda costumam ter um sentido mais filosófico, digamos assim - trazem algum tipo de ensinamento imaterial, algum novo ângulo pelo qual a vida se transforma e parece ganhar mais (ou menos) sentido. Curioso que o encontro com esse taxista desconhecido, de quem nunca mais soube e provavelmente nunca mais venha a saber nada na vida, seja justamente um dos primeiros que percebo trazer um ensinamento prático, um recado específico e muito particular a respeito do que sou. Um alerta, talvez possamos dizer. Que a dor daquele taxista, a quem pouca ajuda pude ou poderia ter prestado, me sirva ao menos de exemplo e estímulo. É hora de cuidar de mim mesmo, é o que ouço com clareza em minha mente. É hora de cuidar da minha saúde.
sábado, 24 de março de 2012
A pomba e o Gavião Casaca-de-Couro
Postado por
Igor Natusch
O Gavião Casaca-de-Couro observava o movimento no passeio público, mantendo seu ar de majestosa indiferença enquanto a vida passava diante de sua gaiola. Em um dos galhos da pequena árvore sem copa, tomava sol com a imponência das aves mais nobres, dos animais que nada temem e que tomam a natureza para si sempre que necessário.
Após um tempo que não nos importa mensurar, pousou diante do Gavião Casaca-de-Couro uma pomba manchada de preto e marrom. Aterrissou no chão batido, ciscou uma ou duas vezes e depois ergueu a cabeça, contemplando o Gavião Casaca-de-Couro com respeitosa seriedade. O Gavião Casaca-de-Couro pouca atenção deu à pomba miserável no começo, mas depois resolveu conceder-lhe um olhar de soslaio, misto de desprezo e piedade, como se desse à pomba maltrapilha um presente ao destinar a ela um mínimo de atenção. E se olharam por instantes - a pomba vagabunda com os pés na areia rala, o Gavião Casaca-de-Couro pousado na árvore nobre em sua jaula imponente.
Disse a pomba apenas uma frase:
- Que triste, ficar preso aí dentro o tempo todo.
E saiu voando, diante do olhar chocado de seu interlocutor, carregando no coração uma piedade genuína do coitado Gavião Casaca-de-Couro.
Após um tempo que não nos importa mensurar, pousou diante do Gavião Casaca-de-Couro uma pomba manchada de preto e marrom. Aterrissou no chão batido, ciscou uma ou duas vezes e depois ergueu a cabeça, contemplando o Gavião Casaca-de-Couro com respeitosa seriedade. O Gavião Casaca-de-Couro pouca atenção deu à pomba miserável no começo, mas depois resolveu conceder-lhe um olhar de soslaio, misto de desprezo e piedade, como se desse à pomba maltrapilha um presente ao destinar a ela um mínimo de atenção. E se olharam por instantes - a pomba vagabunda com os pés na areia rala, o Gavião Casaca-de-Couro pousado na árvore nobre em sua jaula imponente.
Disse a pomba apenas uma frase:
- Que triste, ficar preso aí dentro o tempo todo.
E saiu voando, diante do olhar chocado de seu interlocutor, carregando no coração uma piedade genuína do coitado Gavião Casaca-de-Couro.
sábado, 17 de março de 2012
Sonho
Postado por
Igor Natusch
Tive um sonho bastante movimentado e intenso hoje. Envolvia velhos amigos, escadarias, meu pai, pizza, um beijo roubado e ruas pavimentadas com paralelepípedos fora do lugar. Em determinado momento, me sentia a ponto de chorar de felicidade por estar vivo; em outro, senti o peso de complicadas decisões e desagradáveis certezas. Ao final, me dei conta de forma surpreendentemente suave de que dormia e estava, afinal de contas, sonhando. Ciente dos últimos segundos antes do despertar, permiti a mim mesmo a consciência de saborear os instantes finais daquilo tudo. E sorri enquanto caminhava rumo ao nascer do sol, no sonho e na vida.
domingo, 11 de março de 2012
Sobre a urgência (versão 1)
Postado por
Igor Natusch
Dos caminhos que segui, nada sobrou. Do abraço de despedida, resta a memória aleijada, simulacro falso e absurdo da sensação que foi e não existe mais. Dou o passo, e ele já é passado; olho, e no instante seguinte o que vi já não está mais lá. Nas esquinas e corredores, passo por pessoas que nunca mais verei em minha vida, e as esqueço para sempre no instante seguinte ao que as vi. Cada júbilo e cada dor trazem em si a fragilidade do que nasce condenado a morrer. Vida infinitesimal, milésimos de segundo, um raio fugidio do qual apenas ouvimos o eco. Encerrou, e eis que volta, e eis que acaba de novo, para nunca mais voltar, para ser alguma outra coisa que surge do nada, que nos pega de surpresa, que mal percebemos e nos escapa antes mesmo de nascer dentro de nós. Viras as costas, vais embora, e o que me garante que um dia voltarás? Nada volta, nada jamais voltou: o mundo só anda para a frente. Sempre para frente, indo indo indo rumo ao que ainda não existe e deixando o que um dia foi no limbo do nunca mais. Nunca mais. Porque nenhuma memória é boa suficiente, nenhuma palavra é boa suficiente, nenhuma foto, vídeo, desenho ou poesia captura o que só pode existir em seu caráter inalcançável. Faremos o melhor que pudermos; jamais será o bastante. Nada está ao nosso alcance. Nada jamais esteve e jamais estará. Acabou. Não volta mais. Acabou.
Quem tirará de meu coração toda essa urgência?
Quem tirará de meu coração toda essa urgência?