quarta-feira, 9 de maio de 2012

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domingo, 29 de abril de 2012


Pequeno discurso sobre uma esquina paulistana

Originalmente publicado em 22/nov/2009

Das incontáveis esquinas pelas quais tenho passado nas minhas andanças por São Paulo, uma delas talvez mereça um pequeno destaque. Trata-se do cruzamento da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua dos Ingleses - que eu imagino que seja ainda na Bela Vista, embora não seja exatamente a esquina mais bonita da cidade. Passo por ali mais ou menos seguidamente, especialmente quando vou encontrar uma amiga para conversas sobre a vida regadas a alguns copos de cerveja. Para os que conhecem as ruas de São Paulo pelas referências da Corrida de São Silvestre (tudo bem, eu também era assim), digo que a Brigadeiro não é o que parece pela TV – trata-se de uma avenida sem muito encanto, que poderia ser bela se os seus prédios mais históricos não tivessem todo o jeito de terem servido de carvão para churrasco, e que é pouso cotidiano de uma série de mendigos e desgraçados de todas as cores e idades. A Rua dos Ingleses, por sua vez, é bem mais bonitinha, com belos jardins, sacadas e prédios daqueles que precisa ser alguém rico apenas para cogitar pagar o condomínio. O trecho que se encontra com a Brigadeiro, no entanto, não é dos mais bucólicos – de modo que, se quiséssemos traçar um paralelo entre mundos diferentes que se cruzam numa esquina, teríamos que procurar outro endereço, porque no cruzamento da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses tudo é mais ou menos a mesma coisa, para o bem e para o mal.

Mas enfim, tergiverso. O que de fato interessa na citada esquina é a barreira colocada dos dois lados da via, saindo da esquina da Brigadeiro e avançando alguns metros dentro da Rua dos Ingleses. A ideia, basicamente, é aumentar a segurança de pedestres e motoristas. O cruzamento é bastante movimentado, sendo uma das vias mais comuns de escoamento de carros para quem quer sair da Brigadeiro – e somando isso à geografia do lugar, capaz de ocultar pedestres que atravessem descuidados a rua, torna-se necessário uma grade do tipo para diminuir o risco de atropelamentos e demais acidentes. É um pequeno incômodo: ao invés de atravessar diretamente na esquina, o transeunte que vai pela Brigadeiro é forçado a subir um pouquinho a Rua dos Ingleses e atravessar uns dez metros adiante, onde fica mais fácil ver os carros que se preparam para subir a rua, oriundo dos dois sentidos da avenida.

Quer dizer, era para ser assim. Porque na verdade a preocupação do poder público com o bem estar do cidadão já foi suplantada, sendo substituída pela praticidade pouco responsável, mas eficiente no que se propõe. Algumas das armações metálicas que constituem a barreira foram torcidas, ou por meios mecânicos ou por insistência humana mesmo, e acabaram abrindo espaço para que as pessoas possam atravessar pelo meio delas, chegando ao outro lado da via sem ter que fazer o indesejado trajeto extra. Ou seja, criou-se um atalho no meio da barreira, automaticamente transformando a barreira inteira em pouco mais do que uma peça decorativa, um estranho pedaço de bizarra arte conceitual no meio da imensidão cinzenta. Perdi a conta de quantos eu vi passando pelos espaços abertos no meio daquele cercado já quase inútil – homens, mulheres, crianças, trabalhadores e vagabundos de todos os tipos, esgueirando-se entre o espaço aberto e cruzando rapidamente de um lado a outro, alheios a tudo a não ser suas próprias necessidades e urgências.

Estou a semanas perguntando a mim mesmo por que, no fim das contas, eu ignoro o espaço no meio da barreira e sempre acabo fazendo todo o trajeto, atravessando certinho no lugar indicado. Na verdade, é algo automático: eu simplesmente contorno o cercado, sem pensar no que estou fazendo, atravesso para o outro lado e só quando estou de novo na Brigadeiro é que me dou conta de que, mais uma vez, fiz o caminho mais longo. Sim, claro que é um dilema dos mais insignificantes; mas, por outro lado, me intriga essa atitude simples e mecânica, esse condicionamento a fazer algo que não é fisicamente necessário, e fico matutando sobre o que me leva a agir dessa maneira. Ainda mais reparando que praticamente ninguém age do mesmo modo, que escassos são os que se dão ao trabalho de atravessar no lugar certo, tendo a oportunidade de cruzar por entre as armações e chegar mais rápido do outro lado. Minha última lembrança nesse sentido é a de uma velhinha bem miúda, amparada por alguma parente ou acompanhante, que atravessou vagarosamente a rua e que, obviamente, não tinha condições físicas de fazer a pequena transgressão que os demais fazem de modo quase automático todos os dias. Não era o meu caso, no entanto – não vendo saúde, certo, mas tampouco teria problemas em fazer um pequeníssimo esforço de contorcionismo e atravessar pelo meio das grades. O que, então me impede? Preguiça? Medo de ir contra a lei? Cabeça dura? Conveniência?

Acho que a resposta me ocorreu agora a pouco, ao lembrar outra pessoa que vi atravessando a via no ponto correto, em direção contrária à minha. Era tarde da noite já, início de madrugada de um dia de semana, e o homem que vi era humilde, um negro de bermudas velhas e chinelos de dedo. Alguém que talvez more em algum cortiço próximo, e que havia certamente estado em algum boteco tomando cachaça antes de retornar para o relativo aconchego do lar. Vinha em passos lentos, mas não exatamente trôpegos, e tinha um pequeno sorriso no rosto, como quem está perdido em recordações leves e agradáveis. Duvido que tenha reparado em mim; passou reto, sem hostilidade mas sem interesse, andando devagar de volta para onde quer que fosse o lugar que chamava de lar. Eu, da minha parte, reparei nele, e especialmente no fato de que atravessou a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses de modo seguro e exemplar, como certamente teria sido recomendado por qualquer manual da Prefeitura. Tranquilo, sorridente, relaxado pelo álcool talvez, mas certamente sem pressa. Sem pressa nenhuma.

Acho que é isso, sabe? Isso é que me une a ele, isso que me une à velhinha e as outras poucas pessoas que vi atravessando aquela rua bem certinho, na faixa, sem passar por cima de barreira nenhuma: não temos, nenhum de nós, pressa nenhuma de chegar do outro lado. Quem corre são eles, os que têm trabalho, os que têm família, compromissos, obrigações, os que têm tudo, menos tempo a perder. Eu não sou um deles – e acho que mesmo que estivesse empregado, bem feliz da vida, ou mesmo num futuro com esposa, filhos e prestações me esperando, eu continuaria não sendo um deles. Porque eu estou aprendendo, e isso é uma das grandes lições desse 2009 maluco que estou tendo, que ter pressa não adianta nada; o negócio não é a rapidez, e sim a insistência. A vida não é uma corrida, não é uma competição de quem chega primeiro, e cada vez mais me parece que ninguém vence ou perde no final. Atravesso a esquina da Brigadeiro com a Rua dos Ingleses no lugar indicado porque não tenho motivos para fazer diferente, e nenhuma vontade de me apressar. Se a gente corre demais, não aprecia a paisagem – e é isso que o negro de bermudas e cachaça na cabeça estava fazendo: ele estava, simplesmente, apreciando a paisagem. Sem pressa de chegar. Gosto de pensar que, no fundo, estou fazendo o mesmo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012


Pegar o dia em que nada deu certo e tentar tirar dele algum resquício que seja do extraordinário. Juntar toda a raiva e tristeza e pressão e loucura e desânimo e auto-destruição... E espremer. Apertar entre os dedos, torcer e torcer e torcer em busca do extrato mágico, do toque de cor e energia que dá o mínimo de sentido ao esmagador absurdo. Até que surja um caldo de sonho, uma gota pequena que seja, um minúsculo resquício do rio que foi correr em algum lugar que ninguém mais sabe onde fica.

Surge a gota.

E a gota cai, faz um movimento de retilínea elegância rumo ao chão, e logo vai sumindo na terra, desaparecendo, voltando a ser apenas uma lembrança e uma suspeita.

Por um instante, o choque.

Então, o sorriso.

Não tem problema, pensa. E de um golpe se atira ao chão, beijando o solo, tentando sugar a gota de volta para si. Não tem problema, pensa de novo. Não tem problema.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Me perguntam sobre abandono. Quer saber o que é abandono, meu caro? Abandono é o morador de rua que vi um dia desses, cara fechada, roupas cinza-escuro de pura sujeira, carregando um aparelho de som todo detonado enquanto atravessava a Avenida Ipiranga. O homem cruzou a rua com o sinal verde para veículos, bem devagar, sem olhar para os lados, sem a menor preocupação se vinha carro ou moto ou caminhão ou o que quer que fosse. Vários veículos passaram a mil, tirando fininho dele, flertando com o atropelamento. Gritando, xingando, buzinando - e ele nem aí. Chegou do outro lado meio que por milagre, parou na ponte por cima do arroio, fez um golpe de braço e jogou o aparelho de som lá embaixo, no meio da água suja, soltando um suspiro alto de quem se livra de algo que odeia. E o aparelho se estatelou lá em baixo com um estrondo e o cara seguiu andando devagar, indignado com algo que eu nunca vou saber o que é. Abandono, tu me perguntas? Abandono é esse cara, te respondo. Abandono de toda lógica, todo sorriso, todo motivo, todo sentido e toda explicação. Abandono da vida. Alguém que anda e respira porque nem sabe mais por quê. Porque odeia, talvez. Que cruza a minha vida por uns poucos segundos e logo some, desaparece na cidade cinza, vai odiar a vida em algum lugar bem longe de mim.

domingo, 22 de abril de 2012


Por aquela rua jamais havia andado. Era um caminho de calçadas mal cuidadas, de casas humildes, de árvores cansadas e paralelepípedos. Ainda não era noite, embora o sol há muito tivesse sumido, deixando apenas uma lembrança de si para trás, como um amigo tentanto iluminar o trajeto da noite que chegava para ocupar seu lugar.

Poucos estavam naquela rua àquela hora do sábado. Nenhum reparou nele. Desceu o caminho a passos lentos, cuidando onde pisava, temendo talvez tropeçar em algum buraco ou pedra solta. Em alguns momentos, abandonou a calçada e foi pelo meio-fio; nenhum automóvel passou para importuná-lo. Foi descendo, rumo ao que acreditava ser a esquina de uma avenida conhecida, até ver em um relance a pequena escadaria que levava a uma elevação de terreno. Parado em frente aos degraus, ouviu som de gritos e risadas. Uma praça, pensou, algo admirado de que uma rua tão pouco encantadora pudesse ter uma praça.

Subiu.

Ao topo da escadaria, encontrou o horizonte.

Havia uma lua. Uma imensa lua cheia, grande como não lembrava de ter visto, brilhando amarela contra o violeta do céu indeciso entre a noite e o dia. Uma lua que há séculos não via, em um horizonte do qual tinha até esquecido, e que ali estava paciente esperando por ele. Há quanto tempo? Nunca soube, e mesmo assim já havia esquecido. Sentiu-se arrebatado pelo reencontro, percebeu a satisfação da imensa lua em revê-lo e permaneceu de pé, no topo da pequena escadaria, sua vida pregressa e futura encontrando resumo naquela súbita e inesperada epifania.

Ficou olhando a lua por um longo tempo. E lá permaneceu, décadas depois de ter ido embora, lembrança que encontra no crepúsculo a trilha para a existência eterna.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Quem é você?"

"Não fará muita diferença saber quem sou. Estou apenas de passagem. Estarei aqui por poucos minutos; em seguida partirei e nunca mais me verás."

"Então, não deves ser deste Mundo."

"Não sou, de fato. Porém, certamente sabes que não há outros Mundos: este é o único. Eu, que vejo tudo de fora, posso dizer."

"Vês tudo de fora? Se é verdade, então deves saber bem como o Mundo funciona. Explica-me."

"Não sei muito do Mundo, na verdade. Vejo-o sempre de longe. Entendo um bocado da Vida e um pouco sobre a Morte, mas é só."

"Ah, é? Então me conte mais a respeito da Morte."

"Morte? Que dúvida curiosa a tua. Afinal, estás vivo. Porque desejas saber não da Vida, e sim sobre a Morte?"

"Não sei ao certo. Acho que a Vida nunca me atraiu. A Morte é mais dramática e fascinante. Além disso, a Vida acaba e a Morte é eterna. Seja como for, conte-me mais a respeito da Morte."

"Hmmm. É difícil explicar com palavras. Acho que será mais fácil entender se eu apenas mostrar. Olhe nos meus olhos."

Olhou, e viu. Viu a chuva inclemente, o céu rasgado pelos relâmpagos, a maré alta. Viu a lama cobrindo as plantações, as árvores retorcidas, os cadáveres cobertos de moscas varejeiras. Viu cães brigando por restos de comida enquanto bombas desabavam no horizonte. Viu ratos que saltavam dos prédios, fugindo do fogo rumo ao abismo. Viu relógios que giravam rápido demais, sumindo em meio ao enxofre que tudo cobria. Viu que alguns choravam, que muitos gritavam e que outros tantos gargalhavam em meio aos gritos. Viu traição, viu mentira, viu medo, viu ódio e trapaça. Viu crianças e velhos, reis que tremiam de medo, casais que se despediam. Viu uma estrela pesada caindo do céu; ao longe, quase inaudível, uma voz fazia o batismo, gritando o nome uma vez, e depois mais uma, e depois mais uma. Absinto, era o nome que gritavam. Absinto.

Quando cansou-se de ver, cerrou com força as pálpebras.

"É isso que é a Morte, então?", disse enfim, chorando de medo e revolta. "Uma coleção de tormentos? Um espetáculo sádico onde tudo é dor e desespero?"

"Não. Isso é a Vida. A Morte é o que viste quando fechaste os olhos".

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sinto-me como eterno personagem de um sonho leve e suave - um sonho de reencontros, sorrisos, de sol brilhando em intermináveis campos de puro verde. Um sonho bom, mas que sempre se encerra, por melhor que seja - às vezes com suavidade, outras com pesar, quando não com dolorosa rudeza. A partir daí, vejo-me em um estranho limbo: sigo sendo um fragmento de sonho, ainda que completamente envolto pela cinzenta realidade. Ando incógnito entre os que nada sabem do sonho, mas enxergo fragmentos do sonho em todas as coisas, incapaz que sou de esquecer qual é minha origem e minha essência.

De início, era um sofrimento imenso e esmagador. Com o tempo, porém, entendi minha essência, e aprendi a aceitar que meu mundo não é esse, dos dias que passam sem significado. Vivo, creio eu, para ser a silenciosa lembrança de um doce absurdo. Consigo, nos melhores dias, inserir tons de cor na rotina cinzenta, subverter o fluxo rumo a lugar algum, ser um fantasma corrompendo as engrenagens da máquina. Nesses dias, a mágica se justifica, e o sonho consegue viver, mesmo que por instantes, no triste mundo dos eternamente despertos.