For ten thousand streets of treachery
My arrogance did tread
With the scorn of unfazed reason
No words ever left unsaid
What I knew was all to know
And what I saw was all to see
Biting hard and chewing faster
The green fruits of my frail tree
Raised my towers to the heavens
Had it all and wanted more
Wealth and fame and accolades
With no need to ask what for
Dead all deities of my pantheon
I could reign bold and supreme
Subjected to my strong yoke
All things flowing to my stream
But the clock I pledged allegiance
Soon would move its hands too fast
And the more in my possession
Like I could never have had less
The mouth fed with countless treasures
Gaping wide asking for more
Lost the shelter of my stronghold
My ships sunked far from the shore
On my lips my words of certainty
Would fall dead before its sound
And too loud I yelled my anger
While all towers crumbled down
And I saw with tearfilled eyes
My vain glory swept away
All my streets gone to a dead end
All my colors dimmed to gray
I had become death
And in the darkest core of my diseased soul
Ineffable found good soil
For a new tree
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segunda-feira, 7 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
momento
Postado por
Igor Natusch
No momento, sou a soma de todas as minhas possibilidades.
Logo, nada sou e quase tudo posso ser.
Terei sido outra coisa?
Seremos nós algo além do que enxergam em nós?
Neste caso, e se o que enxergam não é o que somos?
Onde existimos?
Talvez sejamos não mais do que outros percebem em nós
Quando nada pretendemos ser.
Logo, nada sou e quase tudo posso ser.
Terei sido outra coisa?
Seremos nós algo além do que enxergam em nós?
Neste caso, e se o que enxergam não é o que somos?
Onde existimos?
Talvez sejamos não mais do que outros percebem em nós
Quando nada pretendemos ser.
Defesa Pública da Alegria: o que mudou
Postado por
Igor Natusch
[caption id="attachment_593" align="alignleft" width="300"]
Foto: Ramiro Furquim/Sul21[/caption]
Eu estava cansado. Tinha trabalhado bastante, e ainda cabia a mim a nada emocionante tarefa de registrar o último debate dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre. Em casa, ouvia os intermináveis discursos sobre coisa alguma, o teatro que tenta substituir o conteúdo político pela repetição eterna de cacoetes e maneirismos. Havia estado no Defesa Pública da Alegria cerca de duas horas antes: um ambiente muito mais interessante, muito mais vivo e bem mais político, no sentido de política que hoje tantos parecem ter esquecido. Confesso, no entanto, que naquele momento não desejava retornar; estava cansado. Queria apenas deitar a cabeça no travesseiro e dormir.
É claro que não pude dormir. Não recordo mais quem mandou a primeira mensagem de celular: perguntava se eu sabia do que tinha acabado de acontecer no Largo Glênio Peres. Em instantes, comecei a receber telefonemas e mensagens nas redes sociais: manifestantes estavam feridos, outros presos, o ridículo Tatu-Bola de plástico estava no chão. No chão, como brinquei algumas vezes durante o curto período em que lá estive: um boneco sorridente de deboche, símbolo de uma cidade renunciante de si mesma, derrubado em meio a um absurdo de gritos e golpes de cassetete. Era para ser uma celebração animada, ainda que evidentemente desafiadora, da Porto Alegre que se recusava a deixar de ser; virou uma batalha campal.
Foi a cobertura mais emergencial do Sul21 até então. Fiquei como central de informações, fazendo e recebendo telefonemas, organizando relatos, coordenando a equipe que estava na rua. Só tive a chance de tentar inutilmente dormir quando eram quase seis horas da manhã. A cobertura do acontecimento, de certa forma, continua até hoje. Simplesmente porque as coisas seguem acontecendo, talvez até mais do que naquele dia, certamente mais do que antes dele.
Tudo já existia antes do Defesa Pública da Alegria. Mas, ao mesmo tempo, tudo nasceu naquela noite.
Eram vários grupos. Diferentes princípios, ideologias e ideais, unidos vagamente por um ânimo comum: a insatisfação com o mundo de agora, a expectativa de algo diferente. Seguem sendo vários grupos - seria excessivamente otimista e romântico afirmar que, desde o Tatu-Bola, tornaram-se um só. Mas algo mudou. Agora, são conscientes uns dos outros. Não são irmãos apenas na oposição a um poder absurdo governado por interesses que não são os seus e não são os de quase ninguém: são também vítimas de uma repressão comum. Estão unidos no ultraje, tiveram todos o mesmo batismo de fogo. Mesmo diferentes em muito ou em quase tudo, agora se conhecem. E serão leais uns aos outros. Estarão unidos sempre que necessário, sempre que o poder constituído surgir tentando esmagá-los ou consumir sua vontade. Não temem o confronto: já sobreviveram a ele uma vez. Ainda não sabem o que são, mas sabem quem é junto com eles.
A truculência policial deixou as periferias e veio até o centro da cidade. Arrogante de si própria, bateu por hábito, por ser não o modo mais fácil de lidar com uma situação, muito menos o mais eficiente, mas por ser o mais prazeroso. Deliciou-se e delicia-se com o uso da persuasão brutal. Mas agora não são os filhos à margem que voltam espancados para a casa dos pais: são os filhos da classe média, os estudantes, os jovens profissionais de ensino, os artistas. Os que antes liam as manchetes, enxergavam além delas talvez, mas não as sentiam. Eram testemunhas, mas nunca ou quase nunca tinham sido atores. São os filhos de quem compra jornal, de quem assiste TV ao meio-dia, de quem ouve rádio no caminho para o trabalho. Agora, a proteção do patrimônio público não funciona mais como desculpa no que se refere a um número crescente de pessoas. O que antes era certeza cristalina começa a rachar, a desfazer-se em grãos de areia ao contato com a dúvida.
Talvez seja ousadia, mas então ouso dizer que o Defesa Pública da Alegria foi, em outubro, o começo de junho. Que os protestos contra o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre seriam inviáveis sem o dia 4 de outubro de 2012. E sem esses protestos em Porto Alegre, como sabemos, talvez o Brasil inteiro protestando fosse igualmente inviável. Nada mudou, dizem os que enxergam no fato nada além do fato em si. Todos foram à rua e o Congresso segue o mesmo, as corporações estão intactas, ninguém mais lembra do que queria, dos gritos e da mobilização. Apanharam em nome de um boneco de plástico e a Copa continua aí, o governo segue o mesmo, derrubaram árvores, invadiram lugares, prenderam pessoas. Nada mudou, insistem. E, admito, não deixam de ter razão.
Nada mudou. Mas tudo está diferente. Foi um ano todo diferente, em Porto Alegre. É uma realidade em gestação, uma Porto Alegre que, no momento em que mais brutalmente foi negada, curiosamente passou a ser cada vez mais possível. Cada mais mais palpável. Próxima. Real.
Antes, as ruas eram cinzas de cansaço. De desesperança. E cinza continuam, não podemos negar essa verdade. Mas tem mais cor nas esquinas, mais brilho nos olhos, mais gente nas ruas. Eu observo e posso afirmar: é uma cidade que acorda. Que volta a gostar de si mesma. Aos poucos. Uma cidade que eu nem imagino o que vai acabar sendo, se é que vai acabar sendo alguma coisa, mas que quer ser algo diferente e pelo menos um pouco melhor do que tem sido. E que não sabe bem o caminho, mas vai andando, porque já cansou de ficar parada no mesmo lugar.
Nada mudou. Mas tudo está em mudança. E a mudança não se importa com a agenda de ninguém, com a pressa ou atraso de quem quer que seja: ela muda, simplesmente. Eu, por exemplo: não mudei em quase nada, mas ao mesmo tempo mudei em quase tudo. Hoje, sou outra pessoa - simplesmente porque agora quero ser outra pessoa. Antes, eu talvez não quisesse. E é toda essa a beleza e a poesia da mudança: antes de ser fato, ela precisa ser intenção. É esse o grande legado daquela noite absurda onde a BM protegeu de forma truculenta um boneco de plástico da Coca-Cola: as coisas, agora, querem mudar. E querendo mudar, elas mudam. Um pouco de cada vez, devagar talvez, mas sempre.
Eu estava cansado. Tinha trabalhado bastante, e ainda cabia a mim a nada emocionante tarefa de registrar o último debate dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre. Em casa, ouvia os intermináveis discursos sobre coisa alguma, o teatro que tenta substituir o conteúdo político pela repetição eterna de cacoetes e maneirismos. Havia estado no Defesa Pública da Alegria cerca de duas horas antes: um ambiente muito mais interessante, muito mais vivo e bem mais político, no sentido de política que hoje tantos parecem ter esquecido. Confesso, no entanto, que naquele momento não desejava retornar; estava cansado. Queria apenas deitar a cabeça no travesseiro e dormir.
É claro que não pude dormir. Não recordo mais quem mandou a primeira mensagem de celular: perguntava se eu sabia do que tinha acabado de acontecer no Largo Glênio Peres. Em instantes, comecei a receber telefonemas e mensagens nas redes sociais: manifestantes estavam feridos, outros presos, o ridículo Tatu-Bola de plástico estava no chão. No chão, como brinquei algumas vezes durante o curto período em que lá estive: um boneco sorridente de deboche, símbolo de uma cidade renunciante de si mesma, derrubado em meio a um absurdo de gritos e golpes de cassetete. Era para ser uma celebração animada, ainda que evidentemente desafiadora, da Porto Alegre que se recusava a deixar de ser; virou uma batalha campal.
Foi a cobertura mais emergencial do Sul21 até então. Fiquei como central de informações, fazendo e recebendo telefonemas, organizando relatos, coordenando a equipe que estava na rua. Só tive a chance de tentar inutilmente dormir quando eram quase seis horas da manhã. A cobertura do acontecimento, de certa forma, continua até hoje. Simplesmente porque as coisas seguem acontecendo, talvez até mais do que naquele dia, certamente mais do que antes dele.
Tudo já existia antes do Defesa Pública da Alegria. Mas, ao mesmo tempo, tudo nasceu naquela noite.
Eram vários grupos. Diferentes princípios, ideologias e ideais, unidos vagamente por um ânimo comum: a insatisfação com o mundo de agora, a expectativa de algo diferente. Seguem sendo vários grupos - seria excessivamente otimista e romântico afirmar que, desde o Tatu-Bola, tornaram-se um só. Mas algo mudou. Agora, são conscientes uns dos outros. Não são irmãos apenas na oposição a um poder absurdo governado por interesses que não são os seus e não são os de quase ninguém: são também vítimas de uma repressão comum. Estão unidos no ultraje, tiveram todos o mesmo batismo de fogo. Mesmo diferentes em muito ou em quase tudo, agora se conhecem. E serão leais uns aos outros. Estarão unidos sempre que necessário, sempre que o poder constituído surgir tentando esmagá-los ou consumir sua vontade. Não temem o confronto: já sobreviveram a ele uma vez. Ainda não sabem o que são, mas sabem quem é junto com eles.
A truculência policial deixou as periferias e veio até o centro da cidade. Arrogante de si própria, bateu por hábito, por ser não o modo mais fácil de lidar com uma situação, muito menos o mais eficiente, mas por ser o mais prazeroso. Deliciou-se e delicia-se com o uso da persuasão brutal. Mas agora não são os filhos à margem que voltam espancados para a casa dos pais: são os filhos da classe média, os estudantes, os jovens profissionais de ensino, os artistas. Os que antes liam as manchetes, enxergavam além delas talvez, mas não as sentiam. Eram testemunhas, mas nunca ou quase nunca tinham sido atores. São os filhos de quem compra jornal, de quem assiste TV ao meio-dia, de quem ouve rádio no caminho para o trabalho. Agora, a proteção do patrimônio público não funciona mais como desculpa no que se refere a um número crescente de pessoas. O que antes era certeza cristalina começa a rachar, a desfazer-se em grãos de areia ao contato com a dúvida.
Talvez seja ousadia, mas então ouso dizer que o Defesa Pública da Alegria foi, em outubro, o começo de junho. Que os protestos contra o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre seriam inviáveis sem o dia 4 de outubro de 2012. E sem esses protestos em Porto Alegre, como sabemos, talvez o Brasil inteiro protestando fosse igualmente inviável. Nada mudou, dizem os que enxergam no fato nada além do fato em si. Todos foram à rua e o Congresso segue o mesmo, as corporações estão intactas, ninguém mais lembra do que queria, dos gritos e da mobilização. Apanharam em nome de um boneco de plástico e a Copa continua aí, o governo segue o mesmo, derrubaram árvores, invadiram lugares, prenderam pessoas. Nada mudou, insistem. E, admito, não deixam de ter razão.
Nada mudou. Mas tudo está diferente. Foi um ano todo diferente, em Porto Alegre. É uma realidade em gestação, uma Porto Alegre que, no momento em que mais brutalmente foi negada, curiosamente passou a ser cada vez mais possível. Cada mais mais palpável. Próxima. Real.
Antes, as ruas eram cinzas de cansaço. De desesperança. E cinza continuam, não podemos negar essa verdade. Mas tem mais cor nas esquinas, mais brilho nos olhos, mais gente nas ruas. Eu observo e posso afirmar: é uma cidade que acorda. Que volta a gostar de si mesma. Aos poucos. Uma cidade que eu nem imagino o que vai acabar sendo, se é que vai acabar sendo alguma coisa, mas que quer ser algo diferente e pelo menos um pouco melhor do que tem sido. E que não sabe bem o caminho, mas vai andando, porque já cansou de ficar parada no mesmo lugar.
Nada mudou. Mas tudo está em mudança. E a mudança não se importa com a agenda de ninguém, com a pressa ou atraso de quem quer que seja: ela muda, simplesmente. Eu, por exemplo: não mudei em quase nada, mas ao mesmo tempo mudei em quase tudo. Hoje, sou outra pessoa - simplesmente porque agora quero ser outra pessoa. Antes, eu talvez não quisesse. E é toda essa a beleza e a poesia da mudança: antes de ser fato, ela precisa ser intenção. É esse o grande legado daquela noite absurda onde a BM protegeu de forma truculenta um boneco de plástico da Coca-Cola: as coisas, agora, querem mudar. E querendo mudar, elas mudam. Um pouco de cada vez, devagar talvez, mas sempre.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
O que somos
Postado por
Igor Natusch
Dizem um nome. Uma ocupação. Um local de trabalho. Um endereço residencial, uma caixa postal, instituições de ensino, telefone celular. Um e-mail válido. Uma data de nascimento. Uma posição política. Um estado civil. Coisas que foram adquiridas durante a marcha dos anos. Amigos em comum. Lugares onde se esteve. Músicas, livros, filmes, espetáculos de teatro e dança. Um time de futebol. Um restaurante ou casa noturna. Longas sequências de situações inusitadas e eventos extraordinários. Opiniões. Certezas.
Ouço tudo com paciência, mas mal consigo disfarçar os bocejos.
O que são os seres humanos, além da soma de tudo aquilo que ninguém (ou quase ninguém) faz ideia que sejam?
Ouço tudo com paciência, mas mal consigo disfarçar os bocejos.
O que são os seres humanos, além da soma de tudo aquilo que ninguém (ou quase ninguém) faz ideia que sejam?
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Breve relato sobre a segunda-feira chuvosa e as coisas importantes
Postado por
Igor Natusch
[caption id="attachment_581" align="alignleft" width="300"]
Foto: Ramiro Furquim / Sul21[/caption]
O centro de Porto Alegre tem uma qualidade toda particular nas manhãs chuvosas de segunda-feira. A cidade se encolhe para proteger-se das gotas finas: andam as pessoas rente às paredes, acumulam-se debaixo das marquises, enquanto as ruas de pedestres se esvaziam. Surgem os casacos com capuz e as pessoas que não sabem andar carregando guarda-chuvas. É um mau-humor suave, o da região central de Porto Alegre tomada pela chuva - o sentimento de quem, já enxergando tão menos do céu quanto gostaria, lamenta não ter contato, se não com a luminosidade, ao menos com o calor do Sol. Ainda mais em uma manhã de segunda-feira.
Há um toque de humano em tudo que vejo. Isso é inegável.
Para mim, esse tipo de observação é fácil: mesmo carregando guarda-chuva, como hoje, raramente o uso.
Depois de tomar café em uma pequena lancheria, resolvi aguardar debaixo de uma das marquises da Esquina Democrática. Um pouco à frente, um homem tentava distribuir panfletos do que imagino que fosse um centro médico ou algo do tipo. Tarefa complicada em uma segunda-feira chuvosa: mesmo o que não têm pressa estão apressados, e ninguém parece dispor de tempo para ler panfletos, por mais coloridos que sejam. Não desistia, porém. A cada transeunte que passava, estendia um papelzinho colorido, substituindo eventuais palavras por um sorriso que não recebia atenção de quase ninguém.
Uma das pessoas hesitou. Pareceu ver no pedaço de papel algo interessante para si; porém, não decidia-se em pegá-lo, por mais que a ela sorrisse o homem com os panfletos. Sentiu ele então que precisava reforçar a abordagem, e disse brevemente, enquanto a voz tentava sorrir:
"Pode pegar, moça, é bem importante".
Rompida a barreira de silêncio entre ambos, e persuadida pela eficaz argumentação, tomou a senhora o panfleto para si. Chegou a murmurar um obrigado antes de partir.
O sucesso do novo método não passou despercebido ao homem. Tomado de renovada confiança, acrescentou o número a seu esforço de panfletagem, e passou a realçar incansavelmente a importância do material que ofertava. "É importante! Pode pegar, senhor, que é bem importante! Leva, amigo, é importante!". E a pilha de panfletos foi diminuindo a olhos vistos, as pessoas que passavam convencidas de que tratava-se de algo importante, algo que merecia alguns instantes de sua atenção, algo que merecia sair das mãos do homem que panfletava, ir em direção aos bolsos e mochilas, às bolsas e pastas de trabalho, uma trilha colorida que nascia naquela esquina e de lá se espalhava pelos mais diferentes caminhos da cidade tingida de segunda-feira, preguiçosa de chuva.
Se era mesmo importante eu não sei: me distraí na hora de ir embora e acabei não pegando o papel. Mas não deixou de ser agradável perceber que, mesmo nas manhãs mais chuvosas das segundas-feiras menos animadoras, as pessoas ainda sabem que existem coisas importantes que exigem nossa atenção - mesmo que as confundam com um pequeno pedaço de papel vendendo seguros ou tratamento dentário. Imagino que tenha sido importante ao menos para o homem que distribuía panfletos, de qualquer modo.
O centro de Porto Alegre tem uma qualidade toda particular nas manhãs chuvosas de segunda-feira. A cidade se encolhe para proteger-se das gotas finas: andam as pessoas rente às paredes, acumulam-se debaixo das marquises, enquanto as ruas de pedestres se esvaziam. Surgem os casacos com capuz e as pessoas que não sabem andar carregando guarda-chuvas. É um mau-humor suave, o da região central de Porto Alegre tomada pela chuva - o sentimento de quem, já enxergando tão menos do céu quanto gostaria, lamenta não ter contato, se não com a luminosidade, ao menos com o calor do Sol. Ainda mais em uma manhã de segunda-feira.
Há um toque de humano em tudo que vejo. Isso é inegável.
Para mim, esse tipo de observação é fácil: mesmo carregando guarda-chuva, como hoje, raramente o uso.
Depois de tomar café em uma pequena lancheria, resolvi aguardar debaixo de uma das marquises da Esquina Democrática. Um pouco à frente, um homem tentava distribuir panfletos do que imagino que fosse um centro médico ou algo do tipo. Tarefa complicada em uma segunda-feira chuvosa: mesmo o que não têm pressa estão apressados, e ninguém parece dispor de tempo para ler panfletos, por mais coloridos que sejam. Não desistia, porém. A cada transeunte que passava, estendia um papelzinho colorido, substituindo eventuais palavras por um sorriso que não recebia atenção de quase ninguém.
Uma das pessoas hesitou. Pareceu ver no pedaço de papel algo interessante para si; porém, não decidia-se em pegá-lo, por mais que a ela sorrisse o homem com os panfletos. Sentiu ele então que precisava reforçar a abordagem, e disse brevemente, enquanto a voz tentava sorrir:
"Pode pegar, moça, é bem importante".
Rompida a barreira de silêncio entre ambos, e persuadida pela eficaz argumentação, tomou a senhora o panfleto para si. Chegou a murmurar um obrigado antes de partir.
O sucesso do novo método não passou despercebido ao homem. Tomado de renovada confiança, acrescentou o número a seu esforço de panfletagem, e passou a realçar incansavelmente a importância do material que ofertava. "É importante! Pode pegar, senhor, que é bem importante! Leva, amigo, é importante!". E a pilha de panfletos foi diminuindo a olhos vistos, as pessoas que passavam convencidas de que tratava-se de algo importante, algo que merecia alguns instantes de sua atenção, algo que merecia sair das mãos do homem que panfletava, ir em direção aos bolsos e mochilas, às bolsas e pastas de trabalho, uma trilha colorida que nascia naquela esquina e de lá se espalhava pelos mais diferentes caminhos da cidade tingida de segunda-feira, preguiçosa de chuva.
Se era mesmo importante eu não sei: me distraí na hora de ir embora e acabei não pegando o papel. Mas não deixou de ser agradável perceber que, mesmo nas manhãs mais chuvosas das segundas-feiras menos animadoras, as pessoas ainda sabem que existem coisas importantes que exigem nossa atenção - mesmo que as confundam com um pequeno pedaço de papel vendendo seguros ou tratamento dentário. Imagino que tenha sido importante ao menos para o homem que distribuía panfletos, de qualquer modo.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
pontuação
Postado por
Igor Natusch
nada quero
pontuar
antes busco na vida o texto fluido
mas que, tenha,
muitas, virgulas
pelo caminho,
assim, mesmo, espalhadas
de, qualquer, jeito sem, sentido
para, encher o texto, de lindas, pausas
mágicas,
imprevisíveis,
até a hora de ir
dormir.
pontuar
antes busco na vida o texto fluido
mas que, tenha,
muitas, virgulas
pelo caminho,
assim, mesmo, espalhadas
de, qualquer, jeito sem, sentido
para, encher o texto, de lindas, pausas
mágicas,
imprevisíveis,
até a hora de ir
dormir.
sábado, 14 de setembro de 2013
Treze de setembro: recomeço
Postado por
Igor Natusch
- Está tudo correto para o senhor? Alguma dúvida ou retificação? - me pergunta educadamente a moça com os papéis da rescisão de contrato, em um tom de voz bastante gentil, ainda que enfático. É alguém que certamente faz isso várias vezes por dia - afinal, jornalistas entram e saem de contratos de trabalho o tempo todo, ainda mais dentro da lógica de precário equilíbrio que se tornou quase sinônimo de trabalhar em uma redação no Brasil.
A moça em questão trabalha no Sindicato dos Jornalistas e está à minha direita. À esquerda, senta-se outra moça, da empresa de recursos humanos, que há pouco havia me explicado tudo - esse valor é referente a isso, esse desconto é devido a aquilo, esse é o crédito de férias, aqui o desconto da previdência social. Ouço tudo, mas não escuto nada: são números apenas, dígitos que se empilham em uma lógica que não me é de todo estranha, mas que me parece distante demais do que realmente motiva minha presença naquele local. Irrelevâncias, em suma.
Nenhuma dúvida, respondo eu. Nada a retificar.
Existe uma sensação de reencontro em cada partir. Limpar as gavetas é um pouco como remover o que está sobrando em nós mesmos - os papéis acumulados que jamais serão lidos novamente, as canetas que levarei para casa, os cartões com nome endereço telefone e-mail que não serão entregues a ninguém. O carregador extra de celular, que sempre ficava na redação para o caso da bateria acabar sem aviso. A pasta com nossos arquivos no computador. A pasta está vazia. A escova de dentes. O crachá. Pedaços do que a gente foi e de certo modo continua sendo, mesmo já não sendo mais. Reencontro com o que somos e que independe de onde estamos, do horário de chegar e de ir embora, de cargo ou posição. Despidos de um compromisso contratual que de certo modo nos define, voltamos a ser nada mais que a simples imagem de nós mesmos.
Recolho tudo que eu era e coloco algumas coisas dentro da mochila. O resto, no lixo.
São cinco vias. Assino uma a uma, sem pressa, colocando data e dia da semana. Sexta-feira, treze de setembro de dois mil e treze. Foi numa quinta-feira, doze de agosto de dois mil e dez, três dias antes de fazer trinta anos de idade, que coloquei meus pés na redação pela primeira vez. Desembarquei em Porto Alegre pouco depois das dez da manhã, pouco depois da uma da tarde já estava sentando na frente do computador, uma pauta vaga para ser cumprida, rostos simpáticos mas em sua maioria desconhecidos olhando para mim. E foi numa segunda-feira, doze de agosto de dois mil e treze, que comuniquei minha chefe que havia decidido pedir desligamento. Três anos exatos. Três anos.
Não há despedida; há um almoço, há café na redação, há chopp no fim de expediente. Seguirão havendo almoços, cafés, chopp, contato, amizade, convivência. Uma gangue não se separa assim tão fácil, disto eu sei muito bem. Tem muitas histórias lá fora: seguiremos, eu e eles, indo atrás delas. Em trilhas que podem parecer separadas agora, mas seguem mais unidas do que nunca. Tanta coisa precisando acontecer. Tanta coisa para semear.
É tempo de semeadura.
Do lado de fora, os papéis guardados na mochila, a cidade prometendo vento em meio ao sol e ao céu azul, detenho-me na esquina da Rua da Praia com a General Câmara. Observo. É um pouco como se fosse a primeira vez.
O natural seria subir a ladeira. Com os olhos, é como se subisse. Passo em frente ao Tuim, já cheio de gente no meio da tarde, pessoas que tomam chopp enquanto observam a sexta-feira ir embora. Contorno a pequena trincheira, atravesso a Andrade Neves, sigo subindo. Passo em frente ao cartório, à Lancheria Ladeira, dou uma olhada breve para o interior do Beco dos Livros, parte de mim querendo entrar e perder algumas horas procurando livros ao acaso. Detenho-me breve instante ao lado do Sindbancários, tentando lembrar qual o filme em cartaz lá dentro. E então cheguei. Quase entro no Edifício Montreal, corredor rumo ao elevador, quarto andar. Meu andar por quase três anos. Anos que valeram por décadas de vivência, da maior vivência e do melhor aprendizado que a vida pode oferecer.
Olho a ladeira, mas não subo. Volto a andar, em direção à Praça da Alfândega. No momento, é esse o meu lugar: junto aos velhos e vagabundos, aos casais que namoram em um intervalo do expediente, aos senhores que jogam damas, aos homens que vieram do interior e aguardam por entrevistas de emprego. Tenho tempo livre: em um banco da praça, ficarei observando as pessoas que passam, tomando notas em meu caderno enquanto o tempo vai embora lentamente. Cada um tem seu retorno, seu reencontro consigo mesmo: este é o meu.
Feliz de me ter de volta, a praça me oferece um de seus assentos mais confortáveis, à sombra.
Treze de setembro de dois mil e treze.
Nada acabou.
Tudo recomeça.
A moça em questão trabalha no Sindicato dos Jornalistas e está à minha direita. À esquerda, senta-se outra moça, da empresa de recursos humanos, que há pouco havia me explicado tudo - esse valor é referente a isso, esse desconto é devido a aquilo, esse é o crédito de férias, aqui o desconto da previdência social. Ouço tudo, mas não escuto nada: são números apenas, dígitos que se empilham em uma lógica que não me é de todo estranha, mas que me parece distante demais do que realmente motiva minha presença naquele local. Irrelevâncias, em suma.
Nenhuma dúvida, respondo eu. Nada a retificar.
Existe uma sensação de reencontro em cada partir. Limpar as gavetas é um pouco como remover o que está sobrando em nós mesmos - os papéis acumulados que jamais serão lidos novamente, as canetas que levarei para casa, os cartões com nome endereço telefone e-mail que não serão entregues a ninguém. O carregador extra de celular, que sempre ficava na redação para o caso da bateria acabar sem aviso. A pasta com nossos arquivos no computador. A pasta está vazia. A escova de dentes. O crachá. Pedaços do que a gente foi e de certo modo continua sendo, mesmo já não sendo mais. Reencontro com o que somos e que independe de onde estamos, do horário de chegar e de ir embora, de cargo ou posição. Despidos de um compromisso contratual que de certo modo nos define, voltamos a ser nada mais que a simples imagem de nós mesmos.
Recolho tudo que eu era e coloco algumas coisas dentro da mochila. O resto, no lixo.
São cinco vias. Assino uma a uma, sem pressa, colocando data e dia da semana. Sexta-feira, treze de setembro de dois mil e treze. Foi numa quinta-feira, doze de agosto de dois mil e dez, três dias antes de fazer trinta anos de idade, que coloquei meus pés na redação pela primeira vez. Desembarquei em Porto Alegre pouco depois das dez da manhã, pouco depois da uma da tarde já estava sentando na frente do computador, uma pauta vaga para ser cumprida, rostos simpáticos mas em sua maioria desconhecidos olhando para mim. E foi numa segunda-feira, doze de agosto de dois mil e treze, que comuniquei minha chefe que havia decidido pedir desligamento. Três anos exatos. Três anos.
Não há despedida; há um almoço, há café na redação, há chopp no fim de expediente. Seguirão havendo almoços, cafés, chopp, contato, amizade, convivência. Uma gangue não se separa assim tão fácil, disto eu sei muito bem. Tem muitas histórias lá fora: seguiremos, eu e eles, indo atrás delas. Em trilhas que podem parecer separadas agora, mas seguem mais unidas do que nunca. Tanta coisa precisando acontecer. Tanta coisa para semear.
É tempo de semeadura.
Do lado de fora, os papéis guardados na mochila, a cidade prometendo vento em meio ao sol e ao céu azul, detenho-me na esquina da Rua da Praia com a General Câmara. Observo. É um pouco como se fosse a primeira vez.
O natural seria subir a ladeira. Com os olhos, é como se subisse. Passo em frente ao Tuim, já cheio de gente no meio da tarde, pessoas que tomam chopp enquanto observam a sexta-feira ir embora. Contorno a pequena trincheira, atravesso a Andrade Neves, sigo subindo. Passo em frente ao cartório, à Lancheria Ladeira, dou uma olhada breve para o interior do Beco dos Livros, parte de mim querendo entrar e perder algumas horas procurando livros ao acaso. Detenho-me breve instante ao lado do Sindbancários, tentando lembrar qual o filme em cartaz lá dentro. E então cheguei. Quase entro no Edifício Montreal, corredor rumo ao elevador, quarto andar. Meu andar por quase três anos. Anos que valeram por décadas de vivência, da maior vivência e do melhor aprendizado que a vida pode oferecer.
Olho a ladeira, mas não subo. Volto a andar, em direção à Praça da Alfândega. No momento, é esse o meu lugar: junto aos velhos e vagabundos, aos casais que namoram em um intervalo do expediente, aos senhores que jogam damas, aos homens que vieram do interior e aguardam por entrevistas de emprego. Tenho tempo livre: em um banco da praça, ficarei observando as pessoas que passam, tomando notas em meu caderno enquanto o tempo vai embora lentamente. Cada um tem seu retorno, seu reencontro consigo mesmo: este é o meu.
Feliz de me ter de volta, a praça me oferece um de seus assentos mais confortáveis, à sombra.
Treze de setembro de dois mil e treze.
Nada acabou.
Tudo recomeça.