quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Espera

[caption id="attachment_361" align="alignleft" width="300"] Foto: Melissa Venable[/caption]

Esperava há tanto tempo que não era mais capaz de contar. Sentado na cadeira de estofado pouco confortável, sem espaço para as costas, para esticar as pernas. Chão de pedra, frio. Chão frio em uma sala quente. Ventilador de teto estragado, dizia a folha de ofício ao lado do interruptor. No balcão, ninguém. Todos tinham sumido há muito, sem deixar nem mesmo o eco atrás de si. Estava só.

Espere um minuto, haviam dito. E ele esperou. E ainda esperava, envolto em tempo parado. Cercado de vazio. Paredes, chão, teto. Luz fluorescente. Uma janela.

Levantou-se.

Do lado de fora, um mendigo deitado na grama rala, debaixo da única árvore visível.

Aguarde apenas mais um pouco, disse uma voz atrás de si. Em breve chamarão o senhor.

Respirou muito fundo.

A porta bateu com estrondo atrás de si. Mas ele mal ouviu o barulho - era como algo que vinha de muito longe, de uma sala que nunca havia existido, de um mundo de estranho sonho ao qual nunca mais precisaria voltar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Pequena vitória em um ônibus de Porto Alegre

[caption id="attachment_353" align="alignleft" width="300"] Foto: dearaujors / Flickr[/caption]

Era fácil perceber que aquela pessoa, mesmo longe da pobreza total ou da mendicância, trazia consigo a inequívoca disposição de pedir alguma coisa. Era um negro de poucos dentes na boca, usando um blusão vermelho já bastante gasto e calças largas, e que subiu no ônibus de forma muito cautelosa, procurando ter bastante certeza de que o pé estava firme na escada antes de arriscar o próximo passo. Cumprimentou o motorista e o cobrador como se já os conhecesse, passou com dificuldades pela roleta e imediatamente dirigiu a palavra a nós, passageiros geralmente alheios a tudo que não diga respeito a nossas dores, nossos receios e problemas.

Desliguei a música nos fones e me pus a ouvi-lo.

Dizia o homem que era portador de câncer colorretal, o que obrigava ele e outras pessoas do grupo ao qual pertencia a adquirir bolsas especiais para coleta de fezes. O governo federal fornecia gratuitamente uma pequena e insuficiente quantidade para todos os que, segundo ele, necessitavam da tal bolsa - o que levava ele a pedir contribuições aos passageiros, para que fosse possível comprar mais bolsas de modo que a ninguém elas faltassem. Foi isso que disse, entremeado por seguidas citações a Deus, dizendo que só através dEle poderia encontrar cura e pedindo que Ele nos abençoasse por qualquer donativo que porventura pudéssemos fazer.

Não pesquisei sobre o assunto posteriormente, de forma que não sei dizer até que ponto o homem dizia a verdade - mas uma senhora em especial, sentada muito próximo de onde se erguia o homem, pareceu bastante incomodada com aquele discurso. Enquanto os primeiros passageiros já colocavam as mãos em mochilas e carteiras em busca de alguns trocados, ela começou a criticar o homem que pedia as doações - à princípio de forma quase inaudível, resmungando que aquilo tudo era mentira, mas logo erguendo a voz e passando a criticar e, em seguida, xingar o homem sem nenhum constrangimento.

Não sei até que ponto ela tinha alguma razão no que dizia, mas colocava as coisas de maneira tão agressiva e, assim me pareceu, pouco coerente que seus argumentos perdiam força e pareciam mais o desabafo de uma pessoa descontrolada do que qualquer coisa mais concreta ou coerente. Segundo ela, o homem era um mentiroso, não havia falta de bolsas para tratamento colorretal nos postos de saúde e ela podia dizer, já que trabalhava há anos como assistente social e conhecia a realidade na prática. Na visão dela, o homem fazia uso de sua condição para enganar as pessoas, juntando dinheiro para coisas bem menos nobres, como bebida ou drogas - e nós, passageiros de um ônibus de começo de tarde, estaríamos dando dinheiro a uma pessoa sem o mínimo caráter, que explorava nossa boa fé sem o menor escrúpulo e com uma tremenda cara de pau.

A esses ataques o homem respondeu com alguma irritação, mas com admirável autocontrole. Disse repetidas vezes que aquela senhora estava "descontrolada" e falando "de quem não conhece" - argumentos que pareciam deixá-la ainda mais irritada, devo acrescentar. O homem exaltou-se visivelmente apenas uma vez, quando sua interlocutora insinuou, por meio de ironias duras, que talvez ele nem doente fosse. "A senhora está duvidando da minha doença?", disse o homem, e imediatamente levantou o blusão, revelando uma bolsa colada ao próprio corpo com fita adesiva, cheia já pela metade de fezes. Um gesto dramático, que calou os ataques da mulher por alguns instantes - insuficiente, porém, para dissuadi-la, mesmo que sua postura confrontadora contra o pedinte provocasse nos presentes, ao invés de apoio, uma antipatia cada vez mais perceptível.

No entanto, diria eu que o homem venceu de vez a discussão instantes antes da mulher descer do veículo, quando, já com os pés na escada que leva à porta de saída, a senhora soltou um xingamento especialmente odioso, pronunciado com raiva tão intensa quanto incompreensível naquele contexto:

- Safado, cara de pau! Fica enganando as pessoas... Tomara que tu morras por causa desse câncer, seu sem-vergonha!

Por um instante, pareceu-me que o homem iria perder de vez o controle, que cometeria algum xingamento ou gesto violento contra aquela mulher que, sem conhecê-lo pessoalmente, o ofendia de forma tão agressiva a ponto de expressar o mais desumano dos desejos. Mas foi um instante breve, tanto que imagino que mais ninguém o tenha percebido. Tão logo recobrou-se do insulto, olhou fixamente para a mulher e sentenciou, com um sorriso estranho no rosto, mas voz firme:

- E eu desejo que Deus dê à senhora muita saúde. Não desejo nada de mal nem para a senhora, nem para ninguém.

Tão repleta de dignidade foi essa resposta, e pronunciada com tanta firmeza, que não resisti e acabei concordando com um gesto ostensivo de cabeça, um sorriso escapando entre os meus lábios diante daquela bela demonstração de resistência. E o homem olhou fixamente para mim, viu que eu concordava com ele e parece ter se encorajado, pois ainda completou, enquanto a mulher sumia, ainda xingando, vida afora:

- Vai com Deus, viu minha senhora? Que ele ajude a senhora, que tá precisando.

Não sei se Deus foi com ela, do mesmo modo que não sei que tipo de problemas a afligem ou se ela tinha, no fim das contas, algum tipo de razão no que dizia. Sei apenas que foi bom ver que aquele homem, mesmo insultado de forma tão ofensiva diante de várias pessoas, recolheu os trocados que lhe deram e desceu do ônibus com uma expressão tranquila, parecendo até um pouquinho orgulhoso de si mesmo. Se me perguntassem, diria eu que ele tinha sim motivos para sentir-se bem - porque sei o quanto é difícil negar-se ao ódio, recusar o confronto inútil e responder ao ruim não com o pior, mas com o melhor. É um desafio pelo qual todos passamos inúmeras vezes, no trajeto de nossos dias - e quantos de nós fracassam nessa luta uma, duas, incontáveis vezes? Ver aquele homem obviamente humilde e pouco instruído triunfar sobre si mesmo fez com que eu me sentisse um pouco triunfante também, e trato de levar esse bom sentimento comigo, agora que o confronto deixou o presente para esvanecer-se em minha imprecisa (ainda que eterna) memória.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma corrida de táxi até o Palácio da Polícia

"Conheço a rua, sim. Lá na Zona Sul, né? A rua dos blocos?" Perguntou, o taxista, e tinha razão, era lá mesmo. A maioria dos taxistas não sabe, mas eu pergunto sempre, explico ao motorista em tom de brincadeira. "Ah, mas já são mais de vinte anos, né? A gente acaba aprendendo uma coisinha". E deu uma risada expansiva, barulhenta.

Não chovia, mas o céu estava carregado de cinza, alguns raios cruzando o espaço vazio entre os edifícios. Sabia o caminho, o taxista, e foi dirigindo até minha casa sem perguntar mais nada. O que não significa, claro, que fez a viagem em silêncio. Viu em mim, como os taxista normalmente veem, uma pessoa disposta a ouvi-lo falar. E foi falando.

[caption id="attachment_341" align="alignnone" width="850" caption="Foto: Juan José Richards Echeverría"][/caption]

"É bastante tempo, né? Vai fazer vinte e três anos que eu estou na lida", continuou, fazendo o cálculo em voz alta, enumerando os carros que teve para não se enganar na conta. "A gente acaba vendo um monte de coisa. Teve umas situações que, olha, vou te contar. Do cara se beliscar para ver se ainda está vivo, porque o cara fica na dúvida. Do cara ficar pensando tô vivo mesmo, tô vendo mesmo tudo isso acontecer?"

Percebi que queria contar uma história. E é prerrogativa do bom ouvinte encorajar o falante, para que a história surja mais facilmente, mais caudalosa e cheia de detalhes. Contar história a quem não quer ouvir é uma tristeza, eu bem sei. Então fiz meu papel de ouvinte interessado e disse olha meu amigo, eu posso imaginar, mas como assim se beliscar, o amigo achou que ia morrer?

"Olha, já tentaram me assaltar com faca de pão, afiada dos dois lados, que nem punhal. Eu desarmei o cara daqui mesmo, do banco do motorista, preso no cinto ainda. Nem reagi de valente, que eu tenho duas filhas, né: reagi porque achei que eu ia morrer, mesmo. Tu lembra dos tempos que os moleques de rua cheiravam cola de sapateiro? Pois é, uma vez eu vi uma mãe toda mendiga cheirando cola e dando pros filhos cheirarem também. Um dos piás no colo ainda. Me deu uma raiva, fui lá e chutei a lata da mão dela. Joguei no bueiro aquela porcaria. E não é que me deduraram para a Brigada, disseram que eu tinha espancado a mulher? Os caras vieram, me levaram preso, eu me explicando e eles nem queriam saber de nada. Eles são a autoridade, né. Fiquei até cinco da manhã no Palácio, me ficharam, meu patrão teve que ir me tirar de lá. Que coisa, né? O cara faz o que é certo e ainda se incomoda com polícia..."

Entendi que ele fazia um preâmbulo. Trazia consigo uma história maior, uma experiência que ele guardava acima das demais, principal vivência de uma vida no coração de Leviatã.

"E tem uma... Essa é a maior de todas", confirmou, falando bem alto, dando um discreto tapa no volante. "Essa sim, saiu até no jornal. Essa eu me belisco até hoje para ver se estou vivo mesmo".

"Eu era novo no rádio táxi, tinha acabado de entrar na empresa", começou, um estranho sorriso no rosto, como quem recorda um velho fantasma que não mais tem forças para assombrá-lo. "Chamaram um carro na Dona Otília, Beco Dois, e eu sou macaco velho, né, já me liguei que era na Cruzeiro, boca braba. Mesmo assim eu disse ok, deixa que eu vou. Aí o cara da rádio escuta disse olha, tem recomendação especial: entrar de ré".

"Fui lá, entrei de ré no beco, cuidando o número. Mal encostei, o cara abriu a porta de trás do meu Santana, eu tava num Santana na época, né, e jogou uma mala e uma mochila para dentro. Tava lavado de suor o cara, todo ensopado, e nem tava muito calor naquele dia, eu vi que tinha coisa errada. O cara jogou as malas dele no carro, saltou para dentro e disse toca, toca o carro, toca que os caras tão vindo me matar".

Um raio gigantesco cruza o céu, bem à frente ao veículo em que estamos. "Olha que relâmpago, hein", diz o taxista, aproveitando o fenômeno para mudar brevemente de assunto. Concordo com ele, dizendo pois é, o céu tá carregado, vem mais chuva aí. É um bom contador de histórias, penso comigo mesmo; sabe até o momento para fazer uma pausa dramática.

"Eu tô chegando na entrada do beco e aparece os caras. Um com uma 12, cano serrado, o outro com uma 45. Já chegaram fazendo sinal para eu parar, e eu olhei pelo retrovisor para trás, porque achei que o cara que tava no carro ia sacar também e aí deu, né, eu tava fodido. Mas não, o cara não tava maquinado, não tinha arma nenhuma. Só dizia toca, toca por cima, pelo amor de deus, que eles vieram me matar".

Houve nova pausa. Não muito longa, um ou dois segundos no máximo, um breve intervalo de quem toma fôlego para seguir. Ou de quem ainda pesa, muitos e muitos anos depois, as consequências de uma decisão terrível, tomada em uma fração de segundo, diante da urgência que não admite qualquer hesitação.

"Eu não tinha escolha, né", disse ele, quase como se parasse novamente o veículo, como quem novamente salvasse a própria vida às custas de uma sentença de morte. "Parei o carro. Não tinha como. Duas guriazinhas em casa. Os caras iam me furar inteiro. Não tinha como".

"Só vi o cara ali atrás todo lavado de suor, se abaixando, se encolhendo todinho, abraçado nas malas. Nem vi o cara da 45 chegando. É engraçado porque nessa hora, né, no susto da coisa o cara só se liga de ficar olhando a arma maior. O cara da 12 eu fotografei direitinho. O da 45 eu nem vi, só quando ele chegou na janela de trás e meteu bala".

"Onze tiros, amigo. Furou tudo. O cara do banco de trás ficou demolido. Não tem como escapar, as balas se espalham por tudo. Tinha pedaço de cérebro até no porta mala. Tiveram que trocar a porta do Santana". Enumerou esses detalhes mórbidos com uma curiosa dose de orgulho inconsciente. Me pareceu que esse trecho do relato, ainda que nauseante, era uma espécie de reafirmação pessoal, renovado alívio de uma pessoa que viu a morte alheia de perto, mas sobreviveu - ainda que não sem sequelas. "Eu falo alto assim porque perdi 25% da audição do ouvido direito", acrescentou, tirando a mão rapidamente do volante e colocando o indicador quase dentro da orelha. "É uma coisa de louco. Eu achei que só 38 fazia um estampido alto, sabe, aquele BAM, BAM. Que nada, aquela 45 faz um barulho desgraçado também. Eu nem vi nada, só me joguei por cima do volante e fiquei ouvindo. BAM. BAM. BAM".

Imitou os tiros, e silenciou. De novo, não por muito tempo. Com seu silêncio, pontuava o silêncio que tomou conta do beco depois do alarido da morte, naquela noite da qual era um misto de testemunha, carrasco e sobrevivente.

"O cara da 45 disse e aí, motora, tu sabe que tu nasceu de novo, né. Toca para fora daqui e só para lá no Palácio da Polícia. E eu fui mesmo. Fiz todo o caminho bem quietinho, com o cara todo arrebentado ali atrás. Só parei lá no Palácio mesmo. Desci, fui no balcão e disse olha só, aconteceu isso e isso, meu carro tá ali fora, o corpo tá dentro. Os caras não acreditaram, saíram correndo, foram lá fora e viram a desgraça toda. É ou não é do cara se beliscar para ver se está vivo, uma coisa dessas?".

Era sim. Sem dúvida que era.

"A incomodação que isso me deu o senhor nem imagina. Me fizeram ir até lá, reconhecer os caras. Que pavor". Talvez pela única vez em toda a corrida, ficou completamente sério. Me pareceu até um pouco contrariado. Em seguida, porém, retomou a jovialidade. "Eu não reconheci, né", disse, e eu entendi imediatamente o que ele queria dizer. "Não, não eram eles, de jeito nenhum. E me perguntaram, mas o senhor tem certeza? Certeza absoluta, nunca vi na vida, não eram esses aí de jeito nenhum. Eu com duas guriazinhas em casa, me esperando para ter café da manhã. Não tem como".

Concordei com ele, em silêncio. Duas guriazinhas em casa. Todas as noites na rua, doze horas por noite, cinquenta e duas semanas por ano. Duas guriazinhas em casa. Tinha razão, o motorista: não eram eles. Claro que não eram eles.

"E no outro dia eu já tava trabalhando de novo". Ele me disse, e eu não pude acreditar. Como assim, no dia seguinte?, perguntei. "Tô te dizendo", confirmou, o mesmo sorriso estranho do início de volta a seu rosto. "Ficou o carro lá a manhã inteira, fizeram a perícia, trocaram a porta, pintaram e eu já tava na rua de novo. Fazer o quê, né. A vida da gente é isso aí. Tem que colocar a cara na rua. Tem que encarar".

Me deixou na porta de casa, em perfeita segurança. Ficou com o troco; agradeceu-me com um sorriso aberto, um muito obrigado expansivo, de quem traz consigo uma compreensão peculiar sobre as coisas e sobre a vida. Até a próxima, digo eu. "Até a próxima, amigo. Quarenta e três anos, tô no rua mais da metade deles. É muita história. Quer escrever um livro? Fala comigo, fala com os meus colegas, história não vai faltar".

Não faltaria, mesmo. Disso, eu tenho absoluta certeza.

sábado, 22 de setembro de 2012

Breve relato de um sonho com Brilhante Ustra

[caption id="attachment_334" align="alignleft" width="211" caption="Foto: Coletivo Muralha Rubro Negra / Divulgação"]Brilhante Ustra, torturador dos tempos de ditadura militar no Brasil[/caption]

Sonhei que estava em uma coletiva de imprensa na qual falaria o Brilhante Ustra. Pelo jeito, ele ia anunciar que estava livre de processos judiciais, comemorar a impunidade garantida a ele pela Lei da Anistia - ao menos, é essa a pauta que eu recordava ter recebido. A sala era ampla e estava cheia de entusiastas, muitos militares, alguns poucos repórteres. Um deles, conhecido meu de pautas em Assembleias e Câmaras por aí, comentou comigo, em voz baixa:

- Pelo jeito, esse cara se escapou mesmo...

Respondi em um cochicho:

- Se escapou nada, nem imagina a matéria que eu vou fazer sobre essa palhaçada toda!

Ustra estava com uma expressão radiante, plena de confiança. Sorria. Recebia tapinhas nas costas. No centro da sala, uma imensa bandeira brasileira, de verde vivo e chamativo. Nos cantos do palco (pelo jeito, a coletiva seria em um palco), estranhos arranjos misturando rosas brancas, lírios e metralhadoras.

Eu, sentado a um canto, sinto nojo daquilo tudo.

Começa a tocar o hino nacional. Todos se erguem, em júbilo absoluto, para saudar a pátria mãe. É como a abertura de uma convenção partidária. Eu permaneço sentado, segurando o bloquinho e a caneta.

- O senhor precisa se levantar. É o hino - diz uma pessoa, cujo rosto eu não enxergo.

- Não vou me levantar - respondo eu, em voz branda, mas já prevendo incomodação.

- Levante e saúde o líder - disse outro, mais ríspido, me tocando no ombro. Repeli sua mão. Outras pessoas começam a se aproximar. Meu colega jornalista (que estava de pé, mas sempre esteve de pé, então não era por adesão a eles que se erguia) tentava debilmente me defender.

- Não vou levantar. Não vou! - continuava eu, já cercado, levando os primeiros empurrões, enquanto o hino tocava mais alto, cada vez mais alto.

Acordo a instantes do linchamento.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Balada do Rapaz que saiu para tomar Chuva

[caption id="attachment_329" align="alignnone" width="512" caption="Foto: crvdude / Flickr"][/caption]

Originalmente publicado em 05 de novembro de 2009

Era uma vez um rapaz que resolveu sair para tomar chuva. E fazia tempo que não chovia naquele mundo, para falar a verdade. Os escritores por aí gostam de falar de raios trovões que bagunçam e chovem todos os dias, mas às vezes se esquecem, por desatenção ou por desinteresse lírico, de falar dos trovões que nunca soam, das chuvas fugidias que nunca caem e acabam não bagunçando coisa nenhuma. Eis como era a situação do tempo no mundo do rapaz em questão – sol entre nuvens, um dia mais úmido ali, uma semana de ar seco ali, mas chuva mesmo não caia nunca.

Até que apareceu uma grande nuvem cinzenta no céu daquele mundo, e o rapaz animou-se bastante com aquilo. Era uma nuvem vendaval céu preto trovoada que prometia uma chuva daquelas, o que era uma tremenda novidade e deixou o rapaz imediatamente atento e com os olhos e ouvidos bem abertos. Estava longe ainda, não dava para ter certeza de quão grande era a nuvem e de quanta chuva trazia dentro de si – e, como a coisa toda estava demorando bastante para se aproximar, o que era animação foi virando ansiedade e o rapaz começou a ficar preocupado. Era só o que faltava, depois de tanta espera e tanta promessa, o trovão virar estalinho e a chuva virar vento molhado. Uma brisa gostosa vinha da direção na qual a nuvem surgia, trazendo um frescor agradável e um cheiro bom de terra molhada. O rapaz gostava daquilo, mas não achava que fosse o suficiente, e começou a caminhar na direção da nuvem, com uma ideia absurda na cabeça de que, se chegasse mais perto, a espera ia diminuir e ia ter mais chuva na qual se molhar.

Ficou andando o rapaz por um tempinho, mas a nuvem não parecia estar mais perto – na verdade, ela parecia estar se distanciando, como se um vento inoportuno surgisse sabe-se lá de onde para levá-la embora e fazê-la chover em outra freguesia. Começou a andar mais rápido, quase correr, mas não dava jeito de conseguir se aproximar da nuvem vento contrário relâmpago surdo não posso chover aqui desculpe até outro dia. Foi atrás dela por um bom tempo ainda, cada vez menos esperançoso, até que parou, frustrado e cansado, fechando os olhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

De repente, assim mesmo sem aviso e sem sentido, começou a chover. Uma chuvinha bem leve de início, uma chuvinha ventinho frio barulho na janela carícia no rosto que pegou o rapaz de olhos fechados totalmente desprevenido, tanto que ele levou um tempo até perceber que de alguma maneira ele tinha alcançado a nuvem ou a nuvem tinha ido em direção a ele ou ambos ou nem um nem outro enfim não faz diferença. Abriu os olhos, viu encantado a chuva fraca caindo, sorriu com a timidez de quem nem lembrava que uma chuva de vez em quando podia ser tão agradável e bem-vinda. E ficou na chuva, e deixou que a chuva chovesse.

E então, tão de repente quanto tinha chegado, a chuva fraca dobrou-se num barulho de trovão e virou um temporal daqueles de meter medo. Uma chuvarada barulhão luz de relâmpago guarda chuva quebrado rua alagada engarrafamento que surpreendeu muito o rapaz, ao mesmo tempo que o deixou extasiado. Mal acostumado que estava, achava ele que qualquer garoa de quinta-feira à tarde era digna de ser chamada de chuva, de modo que nunca tinha imaginado que uma chuva pudesse ser tão forte, tão bonita e tão poderosa. Ficou totalmente encharcado em questão de instantes, e achou aquilo simplesmente sensacional, fechando de novo os olhos para saborear a sensação.

Pena, para o rapaz, que o temporal foi rápido – e parou tão de repente que, não estivesse o rapaz ensopado da cabeça aos pés, poderia até pensar que nunca tinha chovido. A chuva sumiu num vento gelado calçada molhada passarinho cantando chovi demais nem devia ter chovido chega de chuva adeus boa sorte, e veio um sol forte, um sol de protetor solar fator 50 para cima, um sol daqueles que parece dizer já era, rapaz, aqui não vai chover é nunca mais se depender de mim. Aceitou bem até o rapaz aquele final abrupto; afinal, uma chuva bonita e forte como aquela não podia mesmo ser normal. Ficou triste, mas ao mesmo tempo satisfeito de ter saído para tomar chuva, e resolveu ficar um tempo no sol, para ver se ficava seco e podia então voltar para casa.

Mas, e isso era uma coisa engraçada, ele nunca ficava plenamente seco. Por mais tempo que passasse, sempre parecia que tinha uma dobra da camisa, um espaço entre a meia e o tênis, algum lugar que continua molhado com as águas daquele temporal cada vez mais distante na memória. E dependendo de como o rapaz se mexesse, dependendo de como movesse a cabeça ou balançasse os braços ou olhasse para o horizonte, a descoberta de uma nova região úmida causava um calafrio dolorido, uma sensação debaixo da pele que era fria e quente ao mesmo tempo, uma espécie de dor que não doía mas que mesmo assim dava vontade de chorar.

Ficou um tempo bem grande ali, esperando que algo acontecesse, embora não soubesse àquela altura o que estava esperando no fim das contas. Então decidiu ir embora. Olhou rapidamente para o sol, que continuava ardendo como se fosse o único e eterno dono do céu, e começou a caminhar de volta para o mundo de sol entre nuvens do qual tinha saído. E foi com um susto e com uma correria no coração que viu o fiapo de nuvem cinza, bem longe na fronteira do céu com a terra, tão distante que um pouco mais de desatenção e o rapaz nunca teria reparado. Era parecida com a nuvem que tinha visto antes, a que tinha chovido tão bonito e o deixado todo molhado, mas podia muito bem ser uma nuvem diferente, de uma outra qualidade de chuva: estava muito longe, e ele não conseguia ter certeza. Ficou olhando, e começou a lembrar do vento gostoso, do cheiro de terra molhada e de tudo que tinha vindo depois daquilo.

Ficou na dúvida: ia até lá, ou ficava esperando? Tinha sido uma linda chuva, mas a sensação de estar todo molhado no meio do sol tinha sido muito ruim, e ele ainda lembrava, e ele tinha medo de sentir aquilo de novo. De mais a mais, estava tão longe… Hesitou um tempo, mas na verdade a hesitação era apenas da sua mente: seus pés já estavam andando na direção da tempestade.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O tapa

Sabe quando alguém morre? É algo bem curioso o que acontece quando alguém morre, pessoal. Quando uma pessoa é morta, por incrível que possa parecer, ela fica morta para sempre. Tipo, eternamente, sabe? Quando alguém estava vivo e por algum motivo morre, essa pessoa nunca mais irá viver. O que ela foi, o que ela era e o que poderia ter sido: tudo acabou. Para sempre. Porque ela está morta. Morta.

Não dá para apertar o botão RESET e recomeçar o jogo. É como se você simplesmente morresse de verdade, de forma definitiva e sem chance de mudar. Sabe aquela sensação boa de tomar banho quando a gente se sente sujo e cansado? Para quem morre, isso não existe mais. Afinal de contas, essa pessoa morreu. Você gosta de queijo, por exemplo? Para a pessoa que está morta tanto faz quanto tanto fez se ela gosta ou não de queijo, se ela já gostou de queijo ou se poderia, um dia, ter gostado ou vir a gostar de queijo ou de açúcar ou de banana ou de arroz à grega ou de peixe grelhado ou seja lá do que se queira falar. Dar um beijo, deitar no sol, fazer amor, tirar um cochilo, ouvir música, correr atrás do ônibus, rir de uma piada. Nada disso pode acontecer, nada disso faz mais nenhuma diferença. Porque essa pessoa morreu. Está morta. Mortinha. E nunca mais vai viver. Nunca mais. Nunca.

Imagina um amigo seu morrer assim, para sempre, de forma inapelável e sem poder voltar atrás. Imagina um parente seu morrer desta maneira. Uma pessoa que você ama, seja qual for o seu modo de amor. Uma pessoa importante dessas morrer e você nunca mais vê-la, nunca mais tocá-la ou beijá-la ou amá-la ou mesmo ouvir a voz dela. Nunca mais. Eternamente impossível. Porque ela morreu. Porque mataram ela.

Imagina só isso e depois de tudo isso, depois de saber de forma inapelável que alguém que faz diferença morreu para sempre e nunca mais vai viver nem se as carruagens de Deus rasgarem o céu em um estrondo de trovão, vem alguém e te diz que ela tinha mesmo que morrer. Que ela fez algo errado. Se revoltou demais, perdeu o controle, não aceitou as regras e tentou provocar mudanças nas regras e aí, bom, daí ela morreu. Daí tiveram que matar ela. Porque sei lá, é mais importante que as coisas sigam funcionando exatamente assim, exatamente como são, sem mudarem jamais, de jeito nenhum, não importa quantos tenham que morrer eternamente para que as coisas fiquem assim, congeladas exatamente como estão. Porque quem criou as regras tem o controle, e quem paga aquelas que criaram as regras tem mais controle ainda, e a vontade deles justifica que algumas pessoas morram para sempre de forma a eles continuarem exatamente onde estão.

E imagina que quem te diz isso não é quem criou as regras, quem dá dinheiro para quem criou as regras nem nada disso - e sim alguém na mesma posição que tu, diante da mesma linha de tiro, alguém que pode morrer para sempre eternamente da mesma forma que todos os outros que já não existem e nunca mais hão de existir de novo. Alguém que também pode morrer eternamente para todo o sempre e nunca mais voltar: basta ficar irritado com uma regra que ele não acha justa, exatamente como a pessoa que ela acha que bem feito que morreu, desafiou a lei, fez um crime, tinha mesmo que morrer.

Imagina tudo isso. E me explica, porque para mim não faz sentido algum.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A troca

[caption id="attachment_320" align="alignnone" width="427" caption="Foto: Leon Neal/AFP/Getty Images"]Leon Neal/AFP/Getty Images[/caption]

"Se Deus aparecesse agora na minha frente e me dissesse 'Alex, eu posso mudar o dia do acidente. Posso fazer com que o Tagliani desvie e não atinja seu carro. Você teria as suas pernas, mas não saberia como seriam esses últimos 11 anos da sua vida. Aceita a troca?', eu teria apenas três palavras pra ele: "No. Grazie, Dio".

Alessandro Zanardi, 45 anos, atleta e medalhista paraolímpico. Piloto de F-Indy, perdeu as duas pernas em 2001, em um acidente no EuroSpeedway de Lausitz, Alemanha. Perdeu 3/4 do sangue de seu corpo, teve várias paradas cardíacas e sobreviveu de forma surpreendente a um acidente potencialmente fatal. Passou por 20 cirurgias. Completou a prova de forma simbólica em 2003, realizando as 13 voltas que faltaram em EuroSpeedway em um veículo adaptado - alcançando um tempo que o teria colocado no quinto lugar no grid da corrida naquele ano. Voltou a correr, manteve a vida familiar, tornou-se praticante de handbike e, no dia 5 de setembro de 2012, onze anos depois de ter as pernas decepadas, tornou-se medalha de ouro na Paraolimpíada de Londres.