terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Maratona

Lançaram sobre ele leões e ciclopes, cobras e terremotos, inundações, enxofre, correntes e maledicências. Sobre seus ombros, depositaram o fardo doloroso das culpas e lamentos de Leviatã. Sobre ele desabou Absinto, e contra ele investiram os guerreiros de mil legiões, dispostos a feri-lo com suas lanças e dilacerar sua carne com tenazes. O Olimpo criou os mais terríveis tormentos para puni-lo: negou-lhe água, luz, abrigo, alimento, sono, afago e consolo. Deixou que ele andasse nu diante das chamas da intriga e do frio da indiferença, acompanhado apenas pelo som do escárnio dos que o odiavam sem sequer o conhecer.

A tudo isso, o Humano respondeu com silenciosa insistência. Não recuou; seguiu andando, passo após passo, sem gemer, sem hesitar e sem temer. A cada passo, seu destino parecia mais distante; mesmo assim, andava com a convicção daqueles a quem nada pode deter. Porque o que nele vivia estava além da vida, e Maratona seria cruzada de ponta a ponta, contra tudo e contra todos. Até o fim.